O consumo de bebias alcoólicas durante ondas de calor,
como a que assola parte do Brasil atualmente, pode ser uma ideia pouco
saudável. O aparente alívio em dias quentes pode causar desidratação mais
intensa e piorar o quadro de quem já sofre com as altas temperaturas.
Especialistas afirmam que a ingestão de álcool pode
também agravar a situação de quem tem problemas cardiovasculares, neurológicos
ou psiquiátricos.
A recomendação durante as altas temperaturas é pegar leve
no consumo alcoólico, não beber ou moderar bem, reforçando todas as rodadas com
boas doses de água para compensar as perdas.
O farmacêutico bioquímico Rafael Appel Flores, diretor
científico da empresa Dr. Fisiologia e pós doutor em neuroendocrinologia pela
Universidade de São Paulo (USP), destaca que no calor é fundamental pensar no
metabolismo das substâncias antes de ingeri-las.
O álcool consumido em dias quentes inibe a produção de um
hormônio antidiurético chamado vasopressina (ou ADH), o que amplifica
a desidratação e coloca em risco o organismo já prejudicado pela
temperatura.
“Esse é um hormônio produzido em uma região do cérebro
chamada hipotálamo e que é secretado pela glândula hipófise. O álcool inibe a
ação desse hormônio e uma das ações do ADH é justamente nos rins, aumentando a
reabsorção de água na hora que vai ocorrer a filtração do sangue e a formação
da urina”, diz Flores.
Na prática isso significa que vamos urinar mais vezes do
que precisaríamos só porque ingerimos álcool. “O rim começa a eliminar mais água
na urina. Daí vem o efeito diurético que o álcool tem, por isso as pessoas
tendem a ir mais no banheiro, por exemplo, quando tomam cerveja”, afirma o
pesquisador.
E a perda de líquido que seria fácil de repor em um dia
de temperatura amena, somatiza com a necessidade de equilibrar a temperatura.
“No calor o corpo naturalmente perde água através do suor
para manter a temperatura corporal. Então, a gente já desidrata quando está em
períodos muito quentes”, diz Flores.
Pessoas que têm problemas cardiovasculares também
precisam ficar atentas, por uma tendência de mais variações na pressão
sanguínea devido às altas temperaturas. “Se a pessoa ingere bebida alcoólica,
isso pode potencializar essa carga no sistema cardiovascular e prejudicar ainda
mais o controle da pressão”, avalia.
O especialista diz que o álcool, em geral, não é benéfico
para a saúde humana, mas que isso não implica em deixar de consumir
totalmente a substância. “O recomendável é sempre consumir moderadamente e que,
entre um copo ou outro de cerveja, por exemplo, você tome água para que,
consequentemente, não tenha um efeito tão prejudicial no seu corpo.”
A desidratação, segundo a Organização Mundial de Saúde
(OMS) é uma grande preocupação diante do aquecimento global, uma vez que a água
compõe 70% do organismo humano. Fundamental para as reações metabólicas, a água
do nosso corpo contém eletrólitos e sais minerais que fazem o organismo
funcionar e emitir informações importantes para a sobrevivência.
O corpo desregulado por falta de água pode apresentar
sintomas como hipertermia (corpo muito aquecido), exaustão, confusão mental,
ânsia e vômito, cãibras, alterações cardiovasculares e até falência de rins e
órgãos, com chances aumentadas de mortalidade do paciente.
“Pacientes que não têm função renal podem induzir função
renal por conta da desidratação, é um problema sério”, diz Natan Chehter,
geriatra membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e do
Hospital Estadual Mário Covas.
O médico reforça que idosos são um grupo particularmente
sensível à falta de água no organismo e que o consumo de álcool piora uma
condição já agravada pelo calor intenso.
“A desidratação tem consequências muito sérias. Um idoso
pode ter alteração de estado mental, pode ter confusão, sonolência excessiva,
ou ao contrário, pode passar por um período de agitação. Pacientes que já têm
alguma doença, seja ela neurológica ou psiquiátrica, podem ter descompensação
desses problemas”, afirma Chehter.
Com informações da Folha de S.Paulo
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